quinta-feira, 24 de julho de 2025

NÃO É ESSE O CARPINTEIRO?


Não é esse o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, José, Judas e Simão? Não estão aqui conosco suas irmãs? (Marcos 6:3)






Jesus não foi aceito pelas pessoas que o conheciam, nem como mestre, nem como profeta, muito menos como o Messias, o Filho de Deus. As pessoas que o conheciam, que viram ele crescer, o tinham como o rapaz que trabalhava madeira com o pai na oficina.

A pergunta que fica é: O carpinteiro pode ser outra coisa, além de um artesão?

Na antiguidade, não haviam tantas profissões como na evolução humana. No Século I, na Palestina, a realidade era de trabalhadores ligados à vida do campo e poucos que viviam daquilo que a cidade precisava, entre eles, os téktons, aqueles que cortavam pedras, modelavam o aço e torneavam madeira. Tradicionalmente, os historiadores e professores da Bíblia traduziram a palavra grega tékton para carpinteiro, até porque é muito mais provável que essa tenha sido a verdadeira profissão de José, pai de Jesus, pois Nazaré não tinha nada, a não ser um vilarejo de pessoas comuns e a maioria ignorante (Jo 1:46). E nesse sentido, carpinteiro era o profissional que modelava madeira, seja para construção civil ou fabricação de utensílios e móveis. Embora hoje haja denominação para cada setor da madeira, naquela época, a vida e as casas eram muito mais simples, com bem menos itens do que ao longo da história, assim sendo, Jesus era carpinteiro e marceneiro.

Só encontramos a menção a trabalhadores em madeira nas Escrituras, quando se fala de construção ou artesãos que faziam imagens de deuses para idolatria, e não há citação de outros carpinteiros ou marceneiros ao longo do Antigo ou Novo Testamento. Assim, se deduz que era uma profissão comum, de homens também comuns. A partir daí, vemos o porquê dos conterrâneos de Jesus questionarem a sua apresentação como Mestre e Profeta, e precisamos lembrar que naquele momento Ele não se apresenta como Messias ou Filho de Deus, pois ainda estava na região em que morava.

Uma das coisas que gosto de fazer nesta vida é trabalhar com madeira, seja na carpintaria ou marcenaria. Já construí telhados, fabriquei móveis e até me arrisquei a esculpir, não que seja totalmente habilidoso, mas realmente aprecio o trabalho. É interessante a sensação de ver a coisa tomando forma, e depois a beleza e a utilidade, além das outras sensações durante o processo. Mas confesso que não tenho muita vontade de fazer isso profissionalmente, pois é pouquíssimo valorizado e não é realmente fácil trabalhar com a pressão da satisfação do cliente. Nada diferente ao longo dos tempos, certamente era assim no tempo de Jesus. As pessoas não valorizavam o profissional. Se formos pensar em séculos antes, vemos em documentos sumérios que os carpinteiros tinham um salário muito parecido com os trabalhadores atuais, que lhes garantia apenas a sobrevivência.

Agora, Jesus aparece na sinagoga ensinando com autoridade e curando algumas pessoas, uma atividade que não condizia coma sua ocupação ao longo dos primeiros 30 anos da sua vida. Aliás, na idade que tinha, naquele contexto, não poderia jamais se tornar mestre, pois para isso, deveria ser preparado oficialmente desde os 12 anos, então, era tarde demais para os religiosos.

Quando olhamos para os ofícios espirituais de Cristo, Sacerdote, Profeta e Rei dos reis, vemos que o marceneiro trabalha nas vidas das pessoas, na construção da história e no destino de tudo. Neste ponto precisamos pensar no Carpinteiro como sendo o Deus que criou e domina todas as coisas. Mas quando pensamos em todas as coisas, normalmente nossa mente vai longe.

Neste caso, quero te convidar a pesar um pouco mais naquilo que o Carpinteiro faz na vida de cada ser humano, em especial, na minha e na sua vida.

Quando criança, tinha dois grandes sonhos, e um deles era servir a Deus ensinando as Escrituras, e naquele contexto esperava apenas ser pastor de igreja. O tempo passou e parecia que jamais chegaria o dia em que os sonhos que tinha se realizariam, mas depois de muita luta, estudos, entrega e trabalho no reino de Deus, finalmente, o sonho de ser pastor se realizou, mas para isso, precisei passar pelo cinzel, martelo, serrote, pregos e muita pressão do Carpinteiro Jesus.

Olhando para a minha vida, percebi que o trabalho do Carpinteiro jamais termina. Quando finalmente me tornei pastor, vi a mão de Jesus trabalhando na minha vida e na vida de outras pessoas e que nós não somos como madeira morta, sem reação, mas nos movemos, berramos e as vezes estragamos as modificações que Ele faz. Mas não podemos nos iludir, jamais fazemos nada sem o controle das suas mãos e ainda que nos esforcemos muito, Jesus é Soberano, e nada, nada mesmo, pode escapar do seu olhar cuidadoso e do seu domínio. Se nos perdemos, acontece nas suas grandiosas mãos, mas Ele jamais nos perde de vista.

A Bíblia nos mostra muitos textos que demonstram a soberania e controle de Deus, seja na história, no mundo ou individualmente, na vida das pessoas, em especial, a dos seus filhos. Um dos textos mais interessantes nesse contexto é quando Ele compara seu povo ao vaso que se estraga nas mãos do oleiro, então, este pega o monte de barro que não deu em nada, amassa novamente e torna aquele estrago num vaso útil, como havia planejado desde o início (Jeremias 18.1:23). Deus jamais perde o controle, e mesmo que nós estraguemos, o carpinteiro nos torna úteis novamente.

A minha vida tem ainda as marcas do cinzel, cerrote e até machado, e é assim que funciona. Quando recebemos móveis em casa, eles veem lisinhos, com um aspecto de industrialização, e a maioria deles realmente são industrializados, mas alguns, de madeira maciça, precisam de muito trabalho para tornarem forma, e esse trabalho envolve cortes que marcam a madeira. Minha vida, e certamente a sua, têm marcas do trabalho de Deus. Algumas dessas marcas precisam de tempo para sumir, outras, precisam de trabalho mais profundo do Espírito Santo, e esse envolve, além do tempo, quebrantamento, arrependimento de nossa parte e reparação aos danos que causamos na nossa mente e corpo. Isso sem contar daqueles danos que causamos em outras pessoas e necessitam do mesmo reparo, para então, ficar apenas uma marca fina que o Carpinteiro precisa tirar de outra forma.

Após todo o trabalho que Ele desenvolve a madeira bruta, neste caso nossas vidas, aí ele vem com ferramentas mais delicadas, mas causam alguns arranhões também.

Quando um marceneiro vai fazer um trabalho em madeira, ele corta com Machado, serra, serrote ou outro instrumento, depois, ele faz entalhes, torneamento, e após a definição dos formatos finais, utiliza ferramentas mais precisas, como formões, cepilhadeira, grosa e por fim, lixas de várias granulas, que são desde as mais grossas até as mais finas, que dão o aspecto liso. Terminando esse trabalho, normalmente vem o refino do acabamento com tintas, vernizes, óleos e até cera.

Na nossa vida, o Marceneiro Jesus faz o trabalho usando diversas ferramentas, seja as duras provações, as dores que enfrentamos de forma física e emocional, as percas, os acidentes e até aqueles males que nos acompanham por toda a vida, como doenças e limitações. Na minha vida, tive e tudo um pouco nesse sentido, e percebo em cada um dos desafios que vivi, a mão do Espírito Santo dirigindo, acompanhando e agindo cuidadosamente para que as partes que não seriam necessárias ou até mesmo atrapalhariam a apresentação da minha vida como um instrumento nas mãos de Deus, removidas com cortes profundos na alma.

Uma das dores que mais vivo desde que me conheço por gente e provavelmente você sofre também é justamente a frustração. Lembra que disse que tinha dois grandes sonhos? Pois é, um deles jamais se realizou e nem se realizará.

Por ser filho e neto de militares, ter estudado em escola militar desde os 10 até os 18 anos, o interesse em seguir essa carreira foi muito forte e também muito incentivado. Acabou se tornando um sonho que, após 8 tentativas, entendi uma frase que tem norteado minha vida de escolhas, a partir da 8ª vez: “Quando Deus quer, ele faz, quando não quer, ele me leva até a porta para mostrar que Ele pode, mas não fará”. 

Todas as vezes que tentei seguir carreira militar, reprovei em algum teste. Na última vez para a Polícia Militar do Paraná, por exemplo, reprovei no teste de visão embora não tivesse problema, mas na semana de ingressar com o mandato de segurança para seguir, sofri um acidente treinando para o teste físico, uma luxação no ombro direito que me impossibilitava de fazer “barra”, algo que me desclassificaria completamente, aí entendi que não deveria prosseguir. Você deve estar pensando a mesma coisa que muitas pessoas me disseram: “será que não era Deus te falando que não era para ser?” Mas eu me recusava a entender, por isso tentei mais 3 vezes em outras forças.

A última tentativa de seguir a carreira militar foi um processo de Oficial Temporário como Capelão da Aeronáutica, no ano de 2019. Começou o processo simplificado com minha classificação em 60º, então era impossível seguir, pois havia apenas uma vaga, mas 2 meses se passaram e a Evelyn me perguntou um dia: “Quem foi selecionado naquela vaga, você conhece?”. Fui verificar, e pasme: Ainda não tinha encerrado o processo e estava sendo convocado, pois os outros 50 e poucos foram desclassificados, sobrando eu e mais 4 candidatos. Após uma correria desenfreada, e uma história muito longa para contar aqui, fui desclassificado sem motivo algum, exceto por uma resposta que recebi por telefone: “foi uma decisão do Estado Maior da Aeronáutica” disse o responsável pelo recrutamento.

Um Rapaz que não cumpria as exigências legais foi colocado no lugar e eu desclassificado mesmo cumprindo todas as exigências. Foi aí que percebi: Deus Pode todas as coisas, mas nem sempre Ele faz o que queremos que Ele faça.... Tá, essa lição já havia aprendido em outras formas, com outras frases de efeito, então um dia chorando com dor por ter sofrido, não apenas a frustração, mas o que envolveu o caso, Ele me respondeu com a frase que mudou toda a minha forma de pensar:

“Quando eu quero, eu faço, mas quando não quero, te levo até a porta para mostrar que eu posso, mas não quero que aconteça”

Parece cruel da parte de Deus, mas na verdade, Ele sabe o todo e nós, na nossa ignorância e egoísmo, olhamos apenas para o que o nosso coração deseja, mas esquecemos o que a Palavra nos diz quanto ao nosso coração: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jeremias 17:9).

Além disso, muitas vezes Deus nos livra de muitas coisas que não conseguimos nem imaginar, e isso não alivia nossa dor, mas certamente, com o tempo, entendemos que Deus é Soberano e sabe de todas as coisas e nos dá um futuro certo e cheio de esperança (Jeremias 29:11-13).

Por fim, Deus usa as ferramentas de refino e acabamento, aquelas que nos tornam mais próximos da obra final, mas não se iluda: A obra só acaba no fim, quando vamos nos encontrar com o Criador, o Carpinteiro que planejou e executou toda a obra.

Mas não para por aí, vejo que Ele separa cada partezinha da nossa vida para trabalhar, e muitas vezes somos aperfeiçoados na mente, mais do que qualquer outra coisa e como você bem sabe, os desafios na nossa mente são diários e alguns deles duram a vida toda.

Eu sigo aqui, sendo entalhado, esculpido, cortado e finalizado em cada detalhe da minha vida, e hoje compreendendo que é Ele o Carpinteiro que me molda, então descanso. Confesso que muitas vezes me pego com a frustração, com a dor e outras ferramentas me levando quase a questionar, mas sua graça me alcança e percebo que é o agir cuidadoso de Jesus, que mesmo em silêncio, (e na maioria das vezes é assim que Ele trabalha, a não ser pelos assobios e cantarolares de algumas músicas e declamação da sua Palavra), Ele está realmente trabalhando em mim.

Quero te convidar a refletir nessa mensagem e aplica-la a sua vida, com os detalhes que você tem, as imperfeições que realmente precisam ser cortadas da sua vida. O Carpinteiro Jesus quer fazer no seu ser uma obra maravilhosa, basta você o convidar e deixar Ele trabalhar.

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